segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um frasco de perfume art deco

Achei muita piada a este frasco de perfume em estilo art deco, que estava numa banca da feira de Estremoz a um preço irrecusável. As peças dos anos 20 e 30 do século XX não jogam propriamente bem a com decoração quase eclesiástica da minha casa, mas ainda assim decidi comprar o frasco para o oferecer à minha filha Carminho. É o tipo de objectos que fica bem na cómoda de uma adolescente.

O frasco não está marcado, mas apresenta todas as características do chamado estilo art deco, acrónimo da Exposition internationale des arts décoratifs et industriels modernes, feira mundial realizada em Paris em 1925 e que colocou definitivamente na moda as formas geométricas suaves, saídas do Cubismo e do funcionalismo da Escola da Bauhaus, voga que persistirá até ao final dos anos 30. 

Quando o comprei, achei que devia ser uma coisa francesa pois associamos sempre tudo o que é perfume a França e a Paris. Porém, quando coloquei a fotografia na pesquisa por imagens do Google, asssociado aos termos flacon de parfum ou Perfume Bottle, os resultados que saíram eram quase todos frascos de perfumes checoslovacos. Embora conhecesse a grande tradição de fabrico de vidros e cristais na Boémia fiquei muito intrigado e procurei saber mais alguma coisa, que explicasse estes resultados do motor de pesquisado Google.
 
Um típico frasco de perfume de produção checa dos anos 30.
Com efeito descobri que, se até metade dos anos 20 do século XX, a maioria dos frascos em vidro destinados a produtos de beleza eram de origem italiana ou francesa, a partir de 1927 a Checoslováquia inundou o mercado americano e europeu com os seus produtos de formas geométricas arrojadas, em que normalmente a tampa do frasco assume um tamanho desproporcionado. Mesmo a França não escapou a esta invasão e o fabricante checo Hoffmann and Schlevogt assinou contratos com as grandes casas de Paris para fornecer vidros destinados a conter produtos de cosmética. Note-se que nos anos 20 e 30 ainda se mantinha o hábito de comprar perfume a avulso e a as senhoras investiam na compra de frascos artísticos para guardar os preciosos aromas.
Mostra de frascos checos dos anos 20-

Claro, o frasco que vou oferecer à minha filha não está marcado e pode-se tratar de uma imitação qualquer. Mas, não há dúvida que apresenta as características dos vidros oriundos da antiga Checoslováquia, esse país que entre 1918 e 1938 se destacou na Europa com a sua indústria e design extremamente inovadores.
 
 
 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Il n’y a pas d’amour heureux: um casamento em Outeiro Seco, 1930


 
Procurei durante anos esta fotografia do casamento dos meus avós paternos. Sabia que existia, tinha-a registado na minha memória, mas não constava dos álbuns fotográficos de família, que tão cuidadosamente o meu pai compilou. Finalmente,  descobri há pouco que o meu irmão Zé tinha uma cópia digital, que fez o favor de me enviar e pude confrontar, então, a fotografia real com a imagem que tinha construído dela. Não sei porquê, acreditava que esta fotografia tinha sido feita em frente à Capela do Solar, onde possivelmente se celebrou o casamento, mas comparando esta imagem com a da entrada da capela, pude ver imediatamente que não foi ali que os meus avós fizeram esta pose, em 1930.
 
A capela do Solar dos Montalvões tem dois degraus. A fotografia de casamento dos meus avós não foi tirada aqui.
 
 O Jornal de Chaves, que noticiou o casamento em 23 de Novembro de 1930, refere apenas que a cerimónia religiosa teve lugar na igreja de Outeiro Seco, mas não refere qual delas. É provável que o lauto banquete que se seguiu ao casamento, anunciado pelo referido jornal, tenha tido lugar no Solar e, nesse caso, é possível, que a fotografia tenha sido feita em frente à porta, que dá acesso ao pátio de honra da casa. Pedi ajuda ao meu amigo de Outeiro Seco, o Humberto Ferreira, que através de uma comparação sistemática das fotografias do casamento e da entrada nobre do Solar concluiu que a minha teoria estava correcta. Esta imagem foi tirada, tendo por pano de fundo, a grande porta que dá acesso ao pátio de honra do Solar.
A comparação das pedras da cantaria permite supor com segurança que os meus avós se fizeram retratar em frente à porta que dá acesso ao pátio de honra do solar.
 
Quanto às pessoas representadas na fotografia são os meus avós paternos, Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha (29-12-1907 a 1-02-2000) e Silvino da Cunha (12.10.1901 a 14.03.1972), a pequenita do lado direito é a Natália, a irmã mais nova da noiva, portanto minha tia-avó. Quanto à outra menina, do lado esquerdo do casal, não a consigo identificar. No referido Jornal de Chaves, que discrimina a lista dos convidados, informa-se que estiveram presentes na cerimónia, para além da Natália, outras duas meninas, a saber, a Onorina Maldonado dos Reis Mariz e a Sara Alves Leite. Portanto, a criança do lado esquerdo ou é a Sara ou a Onorina e deixo a escolha ao critério dos leitores deste blog.
 
A fotografia é da autoria da Foto Águia, um estúdio que ficava na Rua de Santo António, nº 39, em Chaves e que, entretanto acabou. Em 1930, não deveria ser uma casa muito antiga, pois não é referenciada no Guia-Album de Chaves e seu Concelho, de 1915.
 
A Foto Águia inaugurou o retrato cinéfilo em Chaves. Anúncio do Almanaque de Chaves, 1937
Claro, esta é uma fotografia banal de casamento igual a tantas outras. Aliás, as fotografias de casamento são sempre iguais. A noiva olha para a câmara com um ar cansado, de quem se levantou de madrugada para arranjar o cabelo, pintar a cara e enfiar-se numa confusão de mousselinas, sedas e rendas, com a ajuda da mãe, da madrinha, das criadas e da modista, em suma, de um batalhão de mulheres. Ao lado, todo composto, o noivo aparenta aquela frescura da juventude, que a todos os que já chegaram à idade madura parece irreal e só não o é, porque, também já nos vimos a nós próprios, em fotografias antigas, com essa mesma expressão de quem tem toda vida pela frente. Por fim, são as meninas, que levaram as alianças ou seguraram a cauda da noiva, vestidas de tule e seda e que ainda não se sujaram no banquete, que se segue ao casamento.

Não é uma fotografia com interesse para a história, mas eu tenho este vício de tentar encontrar nestes  pequenos fragmentos da vida, capturados em segundos, qualquer coisa que ajude a explicar o que sou hoje, ainda que muitas vezes essas tentativas sejam em vão.

A fotografia documenta o casamento de Maria do Espírito Santo e do Silvino, que nem sequer foi feliz, mas como dizia o poeta Louis Aragon, a vida em comum é um estranho e doloroso divórcio e Il n’y a pas d’amour heureux





Um agradecimento especial ao Humberto Ferreira do blog http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/

terça-feira, 11 de julho de 2017

Gravuras de moda do tempo do II Império ou as aventureiras


Aproveitei o aniversário da minha filha Carminho para lhe oferecer duas estampas retiradas de duas revistas francesas de moda, publicadas em Paris, durante o II Império (1852-1870), o Journal des demoiselles (1833-1922) e o Petit courrier des dames (1822-1868). Devem ter sido publicações populares em Portugal, pois já é a segunda vez que compro gravuras extraídas destas duas revistas.
 
 
A primeira estampa do Journal des demoiselles, data de 1856 e a segunda, do Petit courrier des dames, foi publicada no ano de 1864 e quer uma quer outra representam a moda do segundo império, caracterizada pelas saias gigantescas, suportadas por estruturas em crinolina. A mulher do imperador Napoleão III de França, Eugénia do Montijo foi umas das figuras emblemáticas desta moda em que as saias contrariavam as leis da física e do bom senso. Mas não só a Imperatriz e as damas da aristocracia eram estrelas desta forma de trajar. Por esta altura, em Paris, prosperavam e brilhavam as cortesãs, isto é, prostitutas, que pela sua beleza e inteligência tinham acumulado fortunas incalculáveis, como a La Paiva ou Cora Pearl e exibiam, nos teatros ou nos melhores restaurantes, as suas jóias e vestidos faustosos. Eram as célebres demi-mondaines, expressão francesa que designa as mulheres sustentadas por parisienses ricos. Este grupo social que até ao início do séc. XIX era invisível começa a manifestar ruidosamente a sua existência na imprensa, no teatro, nas reuniões sociais e finalmente em toda a sociedade parisiense a partir do segundo império para atingir o seu apogeu por volta de 1900.
 
La Paiva. A mais rica
Estas demi-mondaines têm feito as delícias dos historiadores, dos escritores e dos realizadores de cinema e é difícil escolher qual é a história mais fascinante. A mais conhecida talvez seja a da Paiva, nascida Esther Lachmann, uma judia proveniente da Rússia, que graças a amantes ricos, fez em pouco tempo uma fortuna incalculável e casou com um marquês arruinado, o português Albino Francisco, ao qual pagou as dívidas e tornou-se Marquesa de Paiva Araújo, divorciando-se pouco tempo depois, mas mantendo o título e fazendo construir para si um palácio sumptuoso no Champs-Élysées. Mas a Cora Pearl também não lhe ficava atrás em extravagância. Ficaram célebres os seus banhos em champagne, ou aquela vez em que se serviu nua numa enorme bandeja de prata ou ainda quando actuou na ópera Orfeu nos infernos, de Offenbach, apenas vestida de diamantes e cada vez que caia uma das pedras, não se dignava a apanha-las e dizendo que eram gorjetas para os maquinistas do teatro.
 
Cora Pearl. A mais extravagante
Outra mulher que fez furor durante o segundo império pela sua beleza, trajes extravagantes e escândalos sexuais, foi a aristocrata italiana Virginia de Castiglione, La Perla d'Italia, que foi amante de Napoleão III e ao que parece espia ao serviço do Reino do Piemonte e da causa da unificação italiana. Considerada a mais bela mulher do seu tempo teve uma característica invulgar. Passou mais de metade da sua vida a mandar-se fotografar. Em pleno apogeu da sua vida fez-se retratar com os vestidos, que tinham feito a sua reputação em bailes e acontecimentos sociais. Depois de 1870, já caída em desgraça e esquecida pela sociedade, continuou a mandar-se fotografar com os mesmos vestidos, que lhe tinham granjeado a fama, reencenando, vezes sem conta, os momentos de glória da sua vida.
La Castiglione. A narcisista.
Compradas a bom preço numa feira de alfarrabista, estas gravuras de moda evocam nas nossas vidas corriqueiras um pouco do esplendor e das extravagâncias do II Império francês.
 
Links consultados:
 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

D. João IV da História das guerras no Reino do Brasil


Já aqui escrevi que em Outeiro Seco, no Solar da minha família paterna existia uma colecção de gravuras representando os reis de Portugal, de que sempre ouvi o meu pai e a minha avó falar com algum respeito e admiração, embora eu não me lembre deles. Também com dez ou dezasseis anos não estava sensibilizado para reparar em gravuras. Procurei obter alguma informação mais consistente sobre essa colecção, mas em vão. Nos dois filmes que o meu pai fez da casa nos anos 60, não consegui ver estes quadros nas paredes daquela casa e também não constam de um inventário dos bens do solar, que a minha avó escreveu nos 60 ou 70.

Portanto não faço a menor ideia se a colecção era pequena ou muito grande e se contemplaria os cerca de 34 reis de Portugal. Através da memória do meu pai sei que eram bastantes e estavam colocados nas duas paredes que ladeavam a janela da sala de estar. Por herança, recebi três gravuras dessa colecção e a minha irmã, outra e por essa pequena amostra, presumo que fossem gravuras retalhadas de diferentes livros. Terá sido pois um conjunto formado ao longo dos tempos correspondendo a um sentimento de veneração, pois à época os reis eram figuras tidas em grande respeito.

Talvez por essa razão, sempre que vejo uma gravura antiga representando um antigo rei de Portugal compro-a sem hesitar e assim, ao núcleo inicial proveniente do Solar de Outeiro Seco -D. João I, D. João II, D. Manuel – acrescentei já um D. Fernando I e um D. Pedro II e agora há pouco tempo foi juntar-se à esta pequena colecção uma estampa formidável representando D. João IV. Julgo que no fundo agrada-me a ideia de aos poucos ir reconstituindo na minha casa a antiga colecção de retratos dos reis de Portugal, outrora existente no Solar dos Montalvões. Claro, terei que mudar de casa para alcançar essa meta, mais isso já é outra conversa.
 

Relativamente a esta estampa, fazendo uma pesquisa no Google combinando o título e pelos nomes do criador e gravador, Ioannes 4 Lusitanie Rex / Antonius Horatijs Romanus Benedictus Fariat encontrei rapidamente um exemplar desta gravura no British Museum, com uma data atribuída entre 1661-1724.
 
Folha de rosto da Istoria delle guerre del regno del Brasile

A partir dos dados obtidos no British Museum, efectuei mais umas pesquisas na internet acabei por descobrir na Biblioteca Marciana de Veneza que esta estampa fazia parte de um livro intitulado Istoria delle guerre del regno del Brasile accadute tra la corona di Portogallo e la repubblica di Olanda, da autoria de João José de SANTA TERESA, João (1658-1733), editado em Roma pela Stamperia degl' Eredi deI Corbelletti, no ano de 1698. Contudo no exemplar da biblioteca Marciana, que se encontra digitalizado as gravuras foram coloridas à mão. Mais além encontrei no Google books outro exemplar digitalizado desta edição, onde se vê que o retrato do D. João IV estava entre as páginas 4 e 5 do tomo II da referida obra.
Na edição de 1698 esta estampa encontrava-se no tomo II da Istoria delle guerre del regno del Brasile, entre as páginas 4 e 5

Pensei então que tinha encontrado a data certa de publicação da minha estampa, 1698, quando descubro no catálogo colectivo das bibliotecas italianas, o OPAC SBN, que a Istoria delle guerre del regno del Brasile teve uma segunda edição em 1700, impressa em Roma nella stamperia di Antonio de Rossi : a spese di Giuseppe Sangermano Corvo, libraro à Pasquino. Consequentemente, a minha gravura tanto poderá ter sido retirada da edição de 1698, como da de 1700.

O Rei coloca o braço de fora da moldura, como estivesse a uma janela observando-nos.
O autor do desenho da gravura foi o artista italiano Antonio Horacio Andreas, acerca do qual não encontrei muitas informações, mas a quem não faltava seguramente talento, pois a estampa é muito boa e o pormenor do Rei colocar o braço de fora da moldura, como se estivesse a uma janela observando-nos, é delicioso. Quem executou a gravura, foi o francês Benoît Farjat Benoît Farjat (1645-1646 ?-1724), cuja forma latinizada do nome é Benedictus Fariat. Este senhor viveu e trabalhou maior parte da sua vida em Roma.

Relativamente ao tema, a obra descreve as guerras entre a Holanda e Portugal no Brasil no século XVII e apresenta muitas cartas e vistas daquele país, sobretudo do Nordeste e é uma fonte preciosa para a história brasileira. Uma parte desta obra está também digitalizada na Biblioteca Nacional do Brasil, mas apenas algumas cartas e vistas, que integram o volume factício Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas, coligidos por Diogo Barbosa Machado, um bibliófilo (1682-1772), que se entreteve durante a sua vida a cortar partes de livros, manuscritos e a formar com eles colecções temáticas com anotações suas. Essa impressionante colecção do qual também faziam parte muitos livros raros e valiosos foi doada no tempo de D. José à biblioteca real, biblioteca essa que no tempo das invasões francesas foi para o Brasil, por lá ficou e deu origem a actual Biblioteca Nacional brasileira, no Rio de Janeiro. 
A Istoria delle guerre del regno del Brasile é uma fonte importante para a história do Brasil. Vista de S. Luís do Maranhão. Biblioteca Nacional do Brasil

Dispersei-me um bocadinho neste post acerca desta estampa italiana, impressa em 1698 ou 1700, representando D. João IV e que tem tempos fez parte de um livro sobre as guerras no Brasil com os holandeses. Comecei em Outeiro seco, uma aldeia transmontana, passei por Roma, dei um pulo ao Nordeste Brasileiro e acabei no Rio de Janeiro. Cronologicamente também andei de trás para a frente, mas os objectos tem esta capacidade de nos fazer viajar no tempo e no espaço..
 
 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma taça de faiança espanhola com tema de caça


Hoje apresento-vos uma taça em faiança com motivos de caça, que o meu amigo Manel comprou há uns tempos. Esta peça pareceu-nos desde logo antiga, mas não se assemelhava com nada da produção de faiança portuguesa dos séculos XVII e XVIII. O formato também é algo estranho na cerâmica portuguesa, uma taça pouco profunda, com uns pequenos pés e uma função indeterminada. O Manel e eu pusemos a hipótese de ser uma peça espanhola, talvez de Talavera ou Puente del Arzobispo e com efeito consultamos algumas publicações sobre a faiança do país vizinho e o estilo decorativo desta taça enquadrava-se muito mais na produção espanhola do que na portuguesa. Contudo, se na faiança portuguesa, podemos arriscar alguns palpites e atribuições, ainda que muito a medo, na cerâmica espanhola não temos de todo conhecimentos suficientes para classificar uma peça neste ou naquele centro de fabrico. Em suma, o Manel e eu decidimos que esta taça era uma coisa espanhola, antiga, mas de período e centro de fabricos incertos.

Passado alguns anos mostrei algumas fotografias esta taça a um especialista de faiança, o Rui Trindade, que confirmou tratar-se possivelmente de uma taça em faiança, fabricada algures em Espanha e no século XVIII. Chamou-me a atenção para o facto de ser uma peça moldada à mão, pois não é regular e que seria uma taça para conter alimentos sólidos.
A taça não está marcada. A irregularidade das formas prova que foi moldada à mão
Pouco tempo depois, a nossa amiga Maria Andrade esteve na casa alentejana do Manel, onde admirou esta taça e logo de seguida partiu para visitar o Palácio de Vila Viçosa, onde com o seu olho clínico descobriu uma peça com analogias evidentes a esta. O Manel e eu corremos para Vila Viçosa e lá encontramos dita taça, com um motivo tauromáquico, mas não tinha qualquer legenda, que nos pudesse esclarecer sobre o período e o centro de fabrico.
O tabuleiro do Paço Ducal de Vila Viçosa
Recentemente passou-me um livrinho pelas mãos, Roteiro Paço Ducal de Vila Viçosa / coord. e textos Maria de Jesus Monge. - Caxias : Fundação Casa de Bragança, 2010 e na página 32 do referido roteiro constava uma reprodução do tabuleiro com uma cena tauromáquica. A peça está dada como sendo espanhola, de Sevilha e datada do século XVIII. Li depois num texto na internet, que nos séculos XVII e XVIII a faiança sevilhana foi muito influenciada pela cerâmica de Talavera e de Alcora e que os temas mais típicos eram as cenas de caça com um carácter popular.
Em suma, esta taça moldada à mão será uma peça usada para conter pequenos alimentos e provavelmente foi executada em Sevilha durante o Século XVIII. Claro, não pudemos ter a certeza, pois nos finais do século XIX e inícios do XX, muitas fábricas espanholas começaram a produzir cerâmica ao gosto dos séculos XVII e XVIII e poder-se-dar o caso desta taça ser um desses revivalismos. 
Para melhor admirar esta taça, produzida nesta cidade andaluza, que te enamora e te embruxará, recomendo a inesquecível Sevilla, por Miguel Bosé.


Textos consultados:


Roteiro Paço Ducal de Vila Viçosa / coord. e textos Maria de Jesus Monge. - Caxias : Fundação Casa de Bragança, 2010

http://espanafascinante.com/productos/alfareria-y-ceramica-de-sevilla-pickman/

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Relógio de bolso de um ano fatídico: 1914

Por vezes, simples peças antigas, com um valor comercial mediano são símbolos de acontecimentos dramáticos, que mudaram o curso da humanidade. É o caso deste relógio de bolso de prata, que aparentemente nada o distingue de muitos outros relógios de bolso, tão comuns entre os cavalheiros do mundo ocidental, ao longo do século XIX e inícios do XX.

É certamente de origem helvética, o que não tem nada de extraordinário, porque neste período os relojoeiros suíços estabelecidos maioritariamente, no cantão de Genebra dominavam já o mercado mundial deste tipo de relógios. É, também, um modelo que encontramos à venda no e-bay ou nas feiras de velharias (centenas e centenas de exemplares), mas de fabricantes diferentes.
A marca de punção suíça, o galo montez ou tetraz 
Contudo, são as várias marcas que ostenta, que fazem deste relógio um caso pouco diferente. Como já referi, o relógio é certamente de fabrico suíço porque dentro da caixa, apresenta uma marca de punção suíça, usada entre 1880-1933, isto é, uma figurinha incisa, representando um galo montez ou tetraz. Para quem não saiba, as marcas de punção são sinais incisos feitos por um oficial de um organismo governamental ou pelo menos com funções normativas, cuja missão é verificar a qualidade da prata produzida pelos ourives.
Marcas de punção suíças usadas entre 1880-1933. http://www.vintagewatchstraps.com/swisshallmarks.php
No caso do meu relógio, a percentagem de prata obedecia à norma estabelecida, 0,800 e, consequentemente, o oficial fez a marca do contraste com um punção. Embora o mecanismo não apresente nenhum número, num fórum de relógios em que mostrei esta peça, afiançaram-me que era tipicamente suíço.

A percentagem oficial de prata: 0,800
Já a marca do mostrador, Gravina é um mistério. Pesquisei no Google pelos termos Gravina pocket watch, Gravina montre de poche, Gravina relógios de bolso e não encontrei nenhuma relojoaria suíça com esse nome. O único resultado que me apareceu sempre foi o de uma de uma joalharia Gravina, no Paraná, Brasil, já centenária, fundada em 1906, por um senhor austríaco, Nicolau Gravina. Coloquei a hipótese de se tratar de um relógio suíço comercializado por uma joalharia brasileira, a qual colocou no mostrador a sua marca. Este fenómeno é muito comum também aqui em Portugal e encontramos vários tipos de relógios com mecanismos suíços, americanos ou ingleses, com marcas de ourivesarias do Porto ou Lisboa.
Relógio de bolso marca Gravina

Entrei então em contacto com a Joalharia Gravina, no Paraná, que ainda está na posse da mesma família e um dos descendentes confirmou-me amavelmente, que venderam relógios comercializados com a marca Gravina, mas não tem qualquer informação para um período tão recuado.

No verso, o relógio apresenta uma inscrição personalizada em português, isto é, alguém mandou o ourives gravar as iniciais S.H.E., seguidas da expressão Prémio de Estudo 1914, e, ainda um monograma com as referidas iniciais. Portanto, este relógio foi oferecido em 1914 como prémio a um jovem que se distinguiu nos estudos.
 
Conversei com o meu amigo Vasco, que me ofereceu este relógio, uma herança familiar, mas ele não se lembra de nenhum antepassado cujo nome correspondesse as estas iniciais. 

Restaram-me então conjecturar histórias à volta do relógio. Engendrei uma história romântica em que um titio português enriquecido no Paraná, oferecia este relógio suíço a um sobrinho querido, como prémio dos seus resultados escolares brilhantes, mas a hipótese caiu por terra, pois não consegui provar que este relógio tenha sido comercializado pela joalharia Gravina. 

Ainda assim, 1914 foi o ano em que começou a primeira guerra mundial e pude imaginar que o jovem promissor, a quem foi oferecido este relógio, morreu prematuramente nos campos de batalha da Flandres. Mas, uma coisa é certa, o jovem estudante promissor de 1914 não pode usar este belo objecto de prata nas trincheiras, porque para quem estava deitado, com uma espingarda na mão, era impossível tirar o relógio do bolso, sem se levantar, e arriscar-se a apanhar um tiro. Por essa razão, durante primeira guerra mundial, os relógios de pulso generalizaram-se entre os combatentes e os relógios de bolso começaram a passar irremediavelmente de moda.
 
 
Aditamento: Depois da publicação deste post, o amigo que me ofereceu o relógio, o Vasco identificou o monograma como correspondendo às iniciais de um tio seu, Humberto Oliveira Barbudo (H.O.B.) nascido em 1904 e que à época deste relógio teria 11 anos. Nesse caso, é mais provável que as iniciais S.H.E. correspondam ao nome de quem ofereceu o relógio e o monograma a se reporte ao nome do jovem estudioso. Enfim, perdeu-se em ficção, ganhou-se em verdade.
 
 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Nossa Senhora dos Mártires: uma estampa que retrata uma imagem verdadeira

Regina Martyrum
Há muitos anos que venho coleccionando registos religiosos do século XVIII, essas folhinhas de papel impressas com imagens de Nossa Senhora, de Cristo e de muitos santos e santinhos, objectos de devoção doméstica, muitas vezes comprados depois de uma peregrinação ou romaria a uma igreja ou capelinha. Mas só nos últimos anos me apercebi que algumas destas estampas são representações realísticas de esculturas, que existiram em tempos neste ou naquele santuário, retratando com pormenor as suas vestes e jóias oferecidas pelos crentes. Por isso, agora sempre que compro um registo novo, onde na legenda se diz que santa ou santo tal era na venerado na igreja x ou y vou a correr à internet procurar informações sobre até que ponto a imagem do meu registo é realista ou se a igreja e a escultura que lhe serviram de modelo ainda existem. Claro, nem sempre estas pesquisas dão grandes resultados, pois muitas igrejas caíram no terramoto de 1755 e o seu recheio perdeu-se, outras ainda, com a extinção das ordens religiosas em 1834, foram demolidas ou se ficaram de pé, os seus bens foram vendidos em hasta pública.
 
"Silva delin.", Carvalho sculp. A estampa foi desenhada por Silva e gravada por Carvalho
Mas desta vez tive muita sorte com uma estampa, que comprei recentemente na feira dos Alfarrabistas da Rua da Anchieta, aqui em Lisboa. É uma gravura que representa Nossa Senhora dos Mártires, Regina martyrum, que reproduz com fidelidade a imagem e respectivo trono e baldaquino, que se encontram ainda na Igreja dos Mártires em Lisboa, conforme pude verificar através de uma simples pesquisa de imagens no Google.
Impressa nos finais do séc. XVIII, a minha estampa retrata fielmente uma imagem que ainda hoje existe na Igreja de Nossa Senhora dos Mártires em Lisboa
Foi uma pesquisa fácil, porque Nossa Senhora dos Mártires é um culto muito lisboeta, cuja origem se prende com a reconquista da própria cidade por D. Afonso Henriques em 1147. Segundo a tradição, os cruzados que vieram ajudar na conquista de Lisboa aos mouros, traziam uma imagem de Nossa Senhora. O nosso primeiro rei fez então um voto, que se conseguisse conquistar Lisboa, mandaria erguer um templo dedicado a Nossa Senhora e de facto assim o fez logo em Novembro de 1147, num local onde tinham sido sepultados os soldados mártires, que pereceram na batalha pela conquista da cidade. Com o passar do tempo esta Virgem Maria passou a ser conhecida por Nossa Senhora dos Mártires.

Naturalmente que a actual imagem de Nossa Senhora dos Mártires não data da idade média, pois muitas campanhas de obras foram alterando o interior e o exterior da igreja.
 
Segundo o texto do Cónego Armando Duarte, escrito no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, a actual imagem deverá datar da campanha de obras de 1750. Com o Terramoto de 1755, a igreja dos mártires ruiu, mas salvou-se a imagem. O templo foi reedificado um pouco mais a norte do primitivo local, ficando a obra concluída em 1784. 

Portanto, a imagem da minha estampa retrata a imagem de roca feita à volta 1750, mas enquadrada no altar de talha construído na campanha de obras, pós-terramoto, que terminou em 1784. 
 
Sanefa do baldaquino
O mais curioso é que este altar foi alterado desde então. No topo, tinha uma sanefa, que foi retirada numa época que desconheço. Essa sanefa não foi uma invenção do gravador para tornar a estampa mais bonita. Ela deve ter existido realmente, pois um altar que se encontra na sacristia conserva ainda uma sanefa igual à da gravura, conforme pode ver no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. 
Na sacristia ainda existe um altar com a sanefa, semelhante a que outrora esteve no topo do baldaquino onde se encontra a imagem de Nossa Senhora dos Mártires
Seria interessante saber se na paróquia ainda se conservam as vestes da Virgem retratadas na estampa, porque muitas destas imagens tinham enxovais riquíssimos oferecidos pela mais alta nobreza.
 
 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Chávena com passarinho Vista Alegre ou Vieux Paris

No mercado das velharias é frequente encontrar chávenas, bules, açucareiros e outras peças de serviços de porcelana de chá e café do século XIX, sem nenhuma identificação válida de fabricante. Muitas delas identificamo-las inequivocamente como sendo peças da Vista Alegre, pois conhecemos desde há muito o estilo, os padrões decorativos ou as formas e temos peças iguais em casa marcadas ou já as vimos reproduzidas em livros ou em colecções de museus portugueses.

Outras peças, normalmente com decorações mais sofisticadas e sem marca levantam-nos dúvidas e interrogamo-nos sempre se serão da Vista Alegre ou porcelana de Paris. 

Também designada por Vieux Paris, a chamada porcelana de Paris não é nenhuma fábrica, como a Vista Alegre ou Sêvres. Designa a produção de porcelana feita na capital francesa entre o último quartel do Século XVIII e a primeira metade do século XIX. Muito embora a maioria das peças produzidas ou apenas decoradas na capital francesa, não fossem marcadas, o seu estilo influenciou toda a produção europeia, inclusive a nossa Vista Alegre. 
Nos sites de venda online de França, encontramos muitas das peças da última fase do Vieux Paris que juraríamos terem sido fabricadas pela Vista Alegre

Se pesquisarmos no Google pelas expressões tasse porcelaine Vieux Paris Louis Philippe ou tasse porcelaine Vieux Paris XIX siècle encontraremos imagens nos sites de venda on-line franceses de peças, que nos juraríamos serem da Vista Alegre. Lá estão as mesmas formas, as decorações com florinhas e muito ouro sobre branco. Claro, são francesas, porque obviamente no século XIX a França não importava porcelana de Portugal. Mas estas pesquisas aqui e ali nas páginas de venda on-line francesas sugerem-nos que a Vista Alegre usou e adoptou muito dos modelos da chamada Porcelana de Paris, produzida entre 1830-1850 e fabricou-os em Ílhavo pela segunda metade do século XIX fora. Esta é apenas uma conjectura minha, que não é suportada por nenhuma leitura que tenha feito sobre a história da Vista Alegre e vem a propósito de uma chávena muito bonita, decorada com flores e um passarinho, que comprei na Feira de Estremoz.

A chávena é gomada, um formato muito usado na Vista Alegre no século XIX e as florinhas com os dourados são também muito ao gosto da fábrica de Ílhavo. Mas há qualquer coisa de mais invulgar e sofisticado que me faz crer que seja uma produção francesa. Aliás encontrei à venda no e-bay de França, uma chávena com uma decoração muito semelhante, que reforça este meu palpite que seja francesa.
Chávena de porcelana de Paris à venda no e-bay de França
Seja como for, a chávena não apresenta marca de fábrica, apenas um número 2 inciso no pires, que será provavelmente um sinal do operário, uma indicação da dimensão, enfim, uma marca interna da fábrica usada para controlo da produção. Consequentemente não consigo afirmar se o passarinho pintado na minha chávena começou o seu voo em Paris ou Ílhavo. Pessoalmente preferia que o pássaro fosse português, mas a história não é aquilo que nós desejávamos que ela tivesse sido.