terça-feira, 19 de setembro de 2017

Porto de Mós: uma pequena gravura francesa da primeira metade do século XIX


Embora tenha mais tendência para comprar gravuras do século XVIII, também aprecio muito as estampas coloridas impressas na primeira metade do século XIX, normalmente extraídas de antigos livros de descrições geográficas e históricas ou de narrativas de viagens. Creio que esse meu gosto advém do facto de viajar pouco e assim nas paredes da minha casa, através destas estampas representado cidade e paisagens, vou todos os dias a Paris ou a Londres, nem que seja por uns segundos apenas.

Conhecendo este meu gosto, o meu amigo Manel ofereceu-me esta estampa representando um cruzeiro ou pelourinho da localidade portuguesa de Porto de Mós. Além de bonita, está também muito bem emoldurada, o que é raro. Muitas vezes, quando compramos gravuras temos que deitar fora a moldura e procurar uma coisa mais adequada. Aliás, por esse motivo, estou sempre a comprar molduras nas feiras de velharias e a deitar fora as reproduções de quadros célebres que estão lá dentro. Aliás na minha casa, há uma secção de estampas por encaixilhar e outra de caixilhos sem gravuras, que se procuram constantemente umas às outras.

A estampa representando o pelourinho em Porto de Mós foi publicada na obra Portugal / par. M. Ferdinand Denis. Paris: Firmin Didot, 1849
Esta gravura não está assinada, mas através de meia dúzia de pesquisas no Google, consegui identificar o autor na página de um alfarrabista em Hamburgo, Le voyage en papier - Marc Dechow como sendo obra de Augustin François Lemaitre (1797-1870), impressor, litografo, desenhador e editor, que viveu e trabalhou em Paris. O mesmo site indica a data de impressão como de 1846. Com mais umas buscas no Google e no catálogo da Biblioteca Nacional de França, descobri que a estampa representando o pelourinho em Porto de Mós foi publicada na obra Portugal / par. M. Ferdinand Denis. Paris: Firmin Didot, 1849. Este livro fazia parte de uma gigantesca colecção de 65 volumes, intitulada L'univers pittoresque : histoire et description de tous les peuples, de leurs religions, moeurs, coutumes, industries, etc e que se foi publicando entre 1835-1863.
L'univers pittoresque : histoire et description de tous les peuples, de leurs religions, moeurs, coutumes, industries
Mais tarde esta gravura foi reutilizada na obra Portugal pittoresco ou descripção historica d'este reino / M. Fernando Denis. - Lisboa : [s.n.], 1846-1847, mas numa versão muito estropiada, litografada por um tal Sá.
Uma cópia de má qualidade desta gravura foi publicada na obra Portugal pittoresco ou descripção historica d'este reino / M. Fernando Denis. - Lisboa : [s.n.], 1846-1847
Quanto ao assunto representado, não consegui averiguar sequer se representa o antigo pelourinho ou um cruzeiro da povoação. No site da Direcção-Geral do Património Cultural, menciona-se que é seguro que em Porto de Mós existiu um pelourinho, pois um Livro dos Acordos da Câmara de 1863 refere um Largo do Pelourinho. Mas esse pelourinho foi destruído em data incerta e em 1985 a Câmara mandou erguer uma picota num estilo qualquer incerto. Talvez esta estampa represente o antigo cruzeiro do adro, do qual se conservam um conjunto de fragmentos na Igreja de São Pedro da cidade. Em todo o caso, este monumento devia ser peça muito interessante, com uma imagem de um uma virgem e um menino, e que a julgar pela gravura, deveria ser um objecto de muita devoção pelos habitantes de Porto de Mós.
 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sopeira de faiança portuguesa: cores como num um arco-íris

 
Escrever sobre faianças portuguesas do século XIX é sempre ingrato, pois as peças não eram marcadas, as fábricas copiavam os padrões e os modelos umas das outras e quanto muito, conseguimos afirmar sem grande fundamentação, que uma peça é da zona centro, porque a pasta é mais amarelada ou é do Norte, porque a pasta é mais branquinha e o vidrado de melhor qualidade. Por vezes temos a sorte de encontrar num museu ou no num livro de arte uma peça idêntica à nossa e lá conseguimos dizer “isto deve ser Vilar de Mouros, Miragaia, ou Santo António de Vale da Piedade”. Mas, a maior parte das vezes as perguntas que fazemos sobre o centro de fabrico ou datação das nossas peças ficam sem resposta. Atribuímos esta ou qual peça a um centro de fabrico mais ou por intuição ou por experiência do que baseados em provas concretas.
 
Como a maioria das peças de faiança portuguesa do século XIX, esta sopeira não está marcada.
 
É o caso desta pequena terrina que comprei recentemente. A boa qualidade do vidrado e as cores vivas levam-me a intuir que será uma peça do Porto ou Gaia, fabricada algures na segunda metade do XIX. Mas, não consegui encontrar nada que sustente esta teoria. Percorri os catálogos da exposição do António Capucho e do respectivo leilão, da fábrica de Vilar de Mouros, de Miragaia, dos Meninos Gordos, a tese sobre Santo António de vale da Piedade de Laura Cristina Peixoto de Sousa e ainda Itinerário da faiança do Porto e Gaia e não encontrei nada igual.
 
Fragmento de louça de Santo António de Vale da Piedade. Este tipo de flores encontra-se em quase toda a faiança portuguesa. Foto extraída de "A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista"
A decoração é feita com umas flores muito simples, que poderiam ter sido pintadas em qualquer época ou em qualquer ponto do País. A Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, Massarelos, Bandeira e se calhar também em Coimbra usaram estas flores muitos simples na pintura das suas peças. Aliás, se a um de nós nos pedissem para desenhar umas flores rapidamente, faríamos umas iguaizinhas a estas. A decoração foi feita à estampilha, técnica usada por todas as fábricas ali no Porto e em Gaia, naquela época. Quanto à forma circular, também é muito comum. Até já apresentei uma dessas terrinas aqui no blog, que nunca sei se é Bandeira ou Fervença. Segundo a obra Itinerário da faiança do Porto e Gaia as terrinas circulares designavam-se pelo termo sopeiras.
 
Estampilha de tampa de recipiente da fábrica de Massarelos (MNSR).  Um artefacto semelhante a este foi usado para decorar a minha terrina. Foto extraída de "A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista.
Em suma, posso apenas adiantar um palpite, de que esta sopeira foi fabricada algures pela segunda metade do Séc. XIX no Porto ou em Gaia. Contudo, apesar do anonimato em que se esconde o fabricante ou o artista, que concebeu desta sopeira de pequenas dimensões, não lhe faltava criatividade e houve aqui uma espontaneidade no uso das cores vivas, que ainda hoje nos desperta a admiração. Parece que de repente ouvimos ao longe aquela música Cindy Lauper, true colors, que encoraja as pessoas a não terem medo de mostrar as suas verdadeiras cores ao mundo.
 
 

And I'll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful
Like a rainbow


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Magnífica Chaves


O centro histórico de Chaves está bem conservado. A cidade é uma espécie de Guimarães em miniatura e depois passear pelas suas ruas antigas, onde viveram tantos dos meus antepassados paternos, é sempre uma espécie de peregrinação sentimental. Cada parte da cidade é um conjunto de histórias de que eu ainda me recordo ou de que me lembro de ouvir o pai ou a avó falar. No bairro da Madalena viveram os meus bisavôs, logo ao lado, os pais da minha bisavó Aninhas, um pouco mais frente, a minha tia Natália, num prédio antigo do século XIX, no último andar, cuja varanda dava a volta à casa toda e da qual se tinha uma vista espantosa sobre o Jardim da Madalena. Em miúdo, o meu avô Silvino levava-me a passear a esse jardim e ainda hoje, quando sinto o cheiro a buxo, comovo-me sempre, porque traz-me à memória esses momentos, que devem ter sido felizes. Na outra margem do Tâmega moraram a minha avó Mimi, a tia Maria Antónia e ainda, a tia Antoninha, cuja forma de receber fazia justiça à célebre generosidade transmontana. Quando a visitávamos, recebia-nos na sala de estar, trocava meia dúzia de palavras de circunstância e depois desaparecia para dentro, deixando a filha a entreter as visitas. Passado algum tempo, voltava, abria as cortinas da sala de jantar e o pequeno lanche para o qual a Tia Antoninha nos tinha convidado era um verdadeiro banquete. A Tia Antoninha era daquelas pessoas, que sabia conquistar o coração dos outros através da arte da culinária. Cozinhar com empenho e arte é uma forma de amar. 

Mais além, no largo em frente ao Tribunal de Chaves, a minha irmã aprendeu a andar de bicicleta. Na altura, logo no início dos anos 70, ninguém suspeitava que, por debaixo do empedrado com calçada portuguesa, existiam umas termas romanas luxuosas, que foram postas recentemente a descoberto, aquando da construção de um parque de estacionamento. A Câmara abandonou a ideia do parque para estacionar carros e tomou a decisão corajosa de manter as ruínas e abri-las ao público, e fez muito bem, porque elas são as termas romanas mais bem preservadas de toda a Península Ibérica. É um conjunto impressionante do qual as fotografias não conseguem transmitir a escala grandiosa. Creio que poderiam servir em simultâneo cerca de 70 a 80 pessoas, o que dá ideia da importância da Chaves romana. Mas não eram umas termas quaisquer cujos banhos tivessem apenas fins higiénicos e que existiram em todas as cidades romanas com alguma importância. Eram termas com fins terapêuticos, aliás as piscinas estão ainda cheias de água quente, que brota do solo. Este conjunto termal ocupava uma parte importante da cidade e constituía um núcleo definidor do aglomerado urbano. Aliás, percebe-se agora muito melhor o antigo nome da cidade Aquae Flaviae, que traduzido à letra, quer dizer, as águas dos Flávios. Só é pena que este monumento arqueológico esteja tão mal aproveitado. No interior não há qualquer placa na parede com uma explicação do que foi o edifício, quando foi construído ou destruído e muito menos legendas explicativas sobre as várias piscinas e condutas de água. Também não há à venda um desdobrável, uma brochura ou postais ilustrados. Enfim, quem quiser saber mais que vá chafurdar para o Google, e é uma pena porque uma boa musealização das ruínas poderia atrair muitos e muitos turistas à cidade. Chaves, além de contar com a melhor ponte romana do território português, passa agora a ter o melhor conjunto termal da Península.  
 


Mais informações sobre Balneário Termal Romano podem ser lidas em:
 
 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um frasco de perfume art deco

Achei muita piada a este frasco de perfume em estilo art deco, que estava numa banca da feira de Estremoz a um preço irrecusável. As peças dos anos 20 e 30 do século XX não jogam propriamente bem a com decoração quase eclesiástica da minha casa, mas ainda assim decidi comprar o frasco para o oferecer à minha filha Carminho. É o tipo de objectos que fica bem na cómoda de uma adolescente.

O frasco não está marcado, mas apresenta todas as características do chamado estilo art deco, acrónimo da Exposition internationale des arts décoratifs et industriels modernes, feira mundial realizada em Paris em 1925 e que colocou definitivamente na moda as formas geométricas suaves, saídas do Cubismo e do funcionalismo da Escola da Bauhaus, voga que persistirá até ao final dos anos 30. 

Quando o comprei, achei que devia ser uma coisa francesa pois associamos sempre tudo o que é perfume a França e a Paris. Porém, quando coloquei a fotografia na pesquisa por imagens do Google, asssociado aos termos flacon de parfum ou Perfume Bottle, os resultados que saíram eram quase todos frascos de perfumes checoslovacos. Embora conhecesse a grande tradição de fabrico de vidros e cristais na Boémia fiquei muito intrigado e procurei saber mais alguma coisa, que explicasse estes resultados do motor de pesquisado Google.
 
Um típico frasco de perfume de produção checa dos anos 30.
Com efeito descobri que, se até metade dos anos 20 do século XX, a maioria dos frascos em vidro destinados a produtos de beleza eram de origem italiana ou francesa, a partir de 1927 a Checoslováquia inundou o mercado americano e europeu com os seus produtos de formas geométricas arrojadas, em que normalmente a tampa do frasco assume um tamanho desproporcionado. Mesmo a França não escapou a esta invasão e o fabricante checo Hoffmann and Schlevogt assinou contratos com as grandes casas de Paris para fornecer vidros destinados a conter produtos de cosmética. Note-se que nos anos 20 e 30 ainda se mantinha o hábito de comprar perfume a avulso e a as senhoras investiam na compra de frascos artísticos para guardar os preciosos aromas.
Mostra de frascos checos dos anos 20-

Claro, o frasco que vou oferecer à minha filha não está marcado e pode-se tratar de uma imitação qualquer. Mas, não há dúvida que apresenta as características dos vidros oriundos da antiga Checoslováquia, esse país que entre 1918 e 1938 se destacou na Europa com a sua indústria e design extremamente inovadores.
 
 
 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Il n’y a pas d’amour heureux: um casamento em Outeiro Seco, 1930


 
Procurei durante anos esta fotografia do casamento dos meus avós paternos. Sabia que existia, tinha-a registado na minha memória, mas não constava dos álbuns fotográficos de família, que tão cuidadosamente o meu pai compilou. Finalmente,  descobri há pouco que o meu irmão Zé tinha uma cópia digital, que fez o favor de me enviar e pude confrontar, então, a fotografia real com a imagem que tinha construído dela. Não sei porquê, acreditava que esta fotografia tinha sido feita em frente à Capela do Solar, onde possivelmente se celebrou o casamento, mas comparando esta imagem com a da entrada da capela, pude ver imediatamente que não foi ali que os meus avós fizeram esta pose, em 1930.
 
A capela do Solar dos Montalvões tem dois degraus. A fotografia de casamento dos meus avós não foi tirada aqui.
 
 O Jornal de Chaves, que noticiou o casamento em 23 de Novembro de 1930, refere apenas que a cerimónia religiosa teve lugar na igreja de Outeiro Seco, mas não refere qual delas. É provável que o lauto banquete que se seguiu ao casamento, anunciado pelo referido jornal, tenha tido lugar no Solar e, nesse caso, é possível, que a fotografia tenha sido feita em frente à porta, que dá acesso ao pátio de honra da casa. Pedi ajuda ao meu amigo de Outeiro Seco, o Humberto Ferreira, que através de uma comparação sistemática das fotografias do casamento e da entrada nobre do Solar concluiu que a minha teoria estava correcta. Esta imagem foi tirada, tendo por pano de fundo, a grande porta que dá acesso ao pátio de honra do Solar.
A comparação das pedras da cantaria permite supor com segurança que os meus avós se fizeram retratar em frente à porta que dá acesso ao pátio de honra do solar.
 
Quanto às pessoas representadas na fotografia são os meus avós paternos, Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha (29-12-1907 a 1-02-2000) e Silvino da Cunha (12.10.1901 a 14.03.1972), a pequenita do lado direito é a Natália, a irmã mais nova da noiva, portanto minha tia-avó. Quanto à outra menina, do lado esquerdo do casal, não a consigo identificar. No referido Jornal de Chaves, que discrimina a lista dos convidados, informa-se que estiveram presentes na cerimónia, para além da Natália, outras duas meninas, a saber, a Onorina Maldonado dos Reis Mariz e a Sara Alves Leite. Portanto, a criança do lado esquerdo ou é a Sara ou a Onorina e deixo a escolha ao critério dos leitores deste blog.
 
A fotografia é da autoria da Foto Águia, um estúdio que ficava na Rua de Santo António, nº 39, em Chaves e que, entretanto acabou. Em 1930, não deveria ser uma casa muito antiga, pois não é referenciada no Guia-Album de Chaves e seu Concelho, de 1915.
 
A Foto Águia inaugurou o retrato cinéfilo em Chaves. Anúncio do Almanaque de Chaves, 1937
Claro, esta é uma fotografia banal de casamento igual a tantas outras. Aliás, as fotografias de casamento são sempre iguais. A noiva olha para a câmara com um ar cansado, de quem se levantou de madrugada para arranjar o cabelo, pintar a cara e enfiar-se numa confusão de mousselinas, sedas e rendas, com a ajuda da mãe, da madrinha, das criadas e da modista, em suma, de um batalhão de mulheres. Ao lado, todo composto, o noivo aparenta aquela frescura da juventude, que a todos os que já chegaram à idade madura parece irreal e só não o é, porque, também já nos vimos a nós próprios, em fotografias antigas, com essa mesma expressão de quem tem toda vida pela frente. Por fim, são as meninas, que levaram as alianças ou seguraram a cauda da noiva, vestidas de tule e seda e que ainda não se sujaram no banquete, que se segue ao casamento.

Não é uma fotografia com interesse para a história, mas eu tenho este vício de tentar encontrar nestes  pequenos fragmentos da vida, capturados em segundos, qualquer coisa que ajude a explicar o que sou hoje, ainda que muitas vezes essas tentativas sejam em vão.

A fotografia documenta o casamento de Maria do Espírito Santo e do Silvino, que nem sequer foi feliz, mas como dizia o poeta Louis Aragon, a vida em comum é um estranho e doloroso divórcio e Il n’y a pas d’amour heureux





Um agradecimento especial ao Humberto Ferreira do blog http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/

terça-feira, 11 de julho de 2017

Gravuras de moda do tempo do II Império ou as aventureiras


Aproveitei o aniversário da minha filha Carminho para lhe oferecer duas estampas retiradas de duas revistas francesas de moda, publicadas em Paris, durante o II Império (1852-1870), o Journal des demoiselles (1833-1922) e o Petit courrier des dames (1822-1868). Devem ter sido publicações populares em Portugal, pois já é a segunda vez que compro gravuras extraídas destas duas revistas.
 
 
A primeira estampa do Journal des demoiselles, data de 1856 e a segunda, do Petit courrier des dames, foi publicada no ano de 1864 e quer uma quer outra representam a moda do segundo império, caracterizada pelas saias gigantescas, suportadas por estruturas em crinolina. A mulher do imperador Napoleão III de França, Eugénia do Montijo foi umas das figuras emblemáticas desta moda em que as saias contrariavam as leis da física e do bom senso. Mas não só a Imperatriz e as damas da aristocracia eram estrelas desta forma de trajar. Por esta altura, em Paris, prosperavam e brilhavam as cortesãs, isto é, prostitutas, que pela sua beleza e inteligência tinham acumulado fortunas incalculáveis, como a La Paiva ou Cora Pearl e exibiam, nos teatros ou nos melhores restaurantes, as suas jóias e vestidos faustosos. Eram as célebres demi-mondaines, expressão francesa que designa as mulheres sustentadas por parisienses ricos. Este grupo social que até ao início do séc. XIX era invisível começa a manifestar ruidosamente a sua existência na imprensa, no teatro, nas reuniões sociais e finalmente em toda a sociedade parisiense a partir do segundo império para atingir o seu apogeu por volta de 1900.
 
La Paiva. A mais rica
Estas demi-mondaines têm feito as delícias dos historiadores, dos escritores e dos realizadores de cinema e é difícil escolher qual é a história mais fascinante. A mais conhecida talvez seja a da Paiva, nascida Esther Lachmann, uma judia proveniente da Rússia, que graças a amantes ricos, fez em pouco tempo uma fortuna incalculável e casou com um marquês arruinado, o português Albino Francisco, ao qual pagou as dívidas e tornou-se Marquesa de Paiva Araújo, divorciando-se pouco tempo depois, mas mantendo o título e fazendo construir para si um palácio sumptuoso no Champs-Élysées. Mas a Cora Pearl também não lhe ficava atrás em extravagância. Ficaram célebres os seus banhos em champagne, ou aquela vez em que se serviu nua numa enorme bandeja de prata ou ainda quando actuou na ópera Orfeu nos infernos, de Offenbach, apenas vestida de diamantes e cada vez que caia uma das pedras, não se dignava a apanha-las e dizendo que eram gorjetas para os maquinistas do teatro.
 
Cora Pearl. A mais extravagante
Outra mulher que fez furor durante o segundo império pela sua beleza, trajes extravagantes e escândalos sexuais, foi a aristocrata italiana Virginia de Castiglione, La Perla d'Italia, que foi amante de Napoleão III e ao que parece espia ao serviço do Reino do Piemonte e da causa da unificação italiana. Considerada a mais bela mulher do seu tempo teve uma característica invulgar. Passou mais de metade da sua vida a mandar-se fotografar. Em pleno apogeu da sua vida fez-se retratar com os vestidos, que tinham feito a sua reputação em bailes e acontecimentos sociais. Depois de 1870, já caída em desgraça e esquecida pela sociedade, continuou a mandar-se fotografar com os mesmos vestidos, que lhe tinham granjeado a fama, reencenando, vezes sem conta, os momentos de glória da sua vida.
La Castiglione. A narcisista.
Compradas a bom preço numa feira de alfarrabista, estas gravuras de moda evocam nas nossas vidas corriqueiras um pouco do esplendor e das extravagâncias do II Império francês.
 
Links consultados:
 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

D. João IV da História das guerras no Reino do Brasil


Já aqui escrevi que em Outeiro Seco, no Solar da minha família paterna existia uma colecção de gravuras representando os reis de Portugal, de que sempre ouvi o meu pai e a minha avó falar com algum respeito e admiração, embora eu não me lembre deles. Também com dez ou dezasseis anos não estava sensibilizado para reparar em gravuras. Procurei obter alguma informação mais consistente sobre essa colecção, mas em vão. Nos dois filmes que o meu pai fez da casa nos anos 60, não consegui ver estes quadros nas paredes daquela casa e também não constam de um inventário dos bens do solar, que a minha avó escreveu nos 60 ou 70.

Portanto não faço a menor ideia se a colecção era pequena ou muito grande e se contemplaria os cerca de 34 reis de Portugal. Através da memória do meu pai sei que eram bastantes e estavam colocados nas duas paredes que ladeavam a janela da sala de estar. Por herança, recebi três gravuras dessa colecção e a minha irmã, outra e por essa pequena amostra, presumo que fossem gravuras retalhadas de diferentes livros. Terá sido pois um conjunto formado ao longo dos tempos correspondendo a um sentimento de veneração, pois à época os reis eram figuras tidas em grande respeito.

Talvez por essa razão, sempre que vejo uma gravura antiga representando um antigo rei de Portugal compro-a sem hesitar e assim, ao núcleo inicial proveniente do Solar de Outeiro Seco -D. João I, D. João II, D. Manuel – acrescentei já um D. Fernando I e um D. Pedro II e agora há pouco tempo foi juntar-se à esta pequena colecção uma estampa formidável representando D. João IV. Julgo que no fundo agrada-me a ideia de aos poucos ir reconstituindo na minha casa a antiga colecção de retratos dos reis de Portugal, outrora existente no Solar dos Montalvões. Claro, terei que mudar de casa para alcançar essa meta, mais isso já é outra conversa.
 

Relativamente a esta estampa, fazendo uma pesquisa no Google combinando o título e pelos nomes do criador e gravador, Ioannes 4 Lusitanie Rex / Antonius Horatijs Romanus Benedictus Fariat encontrei rapidamente um exemplar desta gravura no British Museum, com uma data atribuída entre 1661-1724.
 
Folha de rosto da Istoria delle guerre del regno del Brasile

A partir dos dados obtidos no British Museum, efectuei mais umas pesquisas na internet acabei por descobrir na Biblioteca Marciana de Veneza que esta estampa fazia parte de um livro intitulado Istoria delle guerre del regno del Brasile accadute tra la corona di Portogallo e la repubblica di Olanda, da autoria de João José de SANTA TERESA, João (1658-1733), editado em Roma pela Stamperia degl' Eredi deI Corbelletti, no ano de 1698. Contudo no exemplar da biblioteca Marciana, que se encontra digitalizado as gravuras foram coloridas à mão. Mais além encontrei no Google books outro exemplar digitalizado desta edição, onde se vê que o retrato do D. João IV estava entre as páginas 4 e 5 do tomo II da referida obra.
Na edição de 1698 esta estampa encontrava-se no tomo II da Istoria delle guerre del regno del Brasile, entre as páginas 4 e 5

Pensei então que tinha encontrado a data certa de publicação da minha estampa, 1698, quando descubro no catálogo colectivo das bibliotecas italianas, o OPAC SBN, que a Istoria delle guerre del regno del Brasile teve uma segunda edição em 1700, impressa em Roma nella stamperia di Antonio de Rossi : a spese di Giuseppe Sangermano Corvo, libraro à Pasquino. Consequentemente, a minha gravura tanto poderá ter sido retirada da edição de 1698, como da de 1700.

O Rei coloca o braço de fora da moldura, como estivesse a uma janela observando-nos.
O autor do desenho da gravura foi o artista italiano Antonio Horacio Andreas, acerca do qual não encontrei muitas informações, mas a quem não faltava seguramente talento, pois a estampa é muito boa e o pormenor do Rei colocar o braço de fora da moldura, como se estivesse a uma janela observando-nos, é delicioso. Quem executou a gravura, foi o francês Benoît Farjat Benoît Farjat (1645-1646 ?-1724), cuja forma latinizada do nome é Benedictus Fariat. Este senhor viveu e trabalhou maior parte da sua vida em Roma.

Relativamente ao tema, a obra descreve as guerras entre a Holanda e Portugal no Brasil no século XVII e apresenta muitas cartas e vistas daquele país, sobretudo do Nordeste e é uma fonte preciosa para a história brasileira. Uma parte desta obra está também digitalizada na Biblioteca Nacional do Brasil, mas apenas algumas cartas e vistas, que integram o volume factício Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas, coligidos por Diogo Barbosa Machado, um bibliófilo (1682-1772), que se entreteve durante a sua vida a cortar partes de livros, manuscritos e a formar com eles colecções temáticas com anotações suas. Essa impressionante colecção do qual também faziam parte muitos livros raros e valiosos foi doada no tempo de D. José à biblioteca real, biblioteca essa que no tempo das invasões francesas foi para o Brasil, por lá ficou e deu origem a actual Biblioteca Nacional brasileira, no Rio de Janeiro. 
A Istoria delle guerre del regno del Brasile é uma fonte importante para a história do Brasil. Vista de S. Luís do Maranhão. Biblioteca Nacional do Brasil

Dispersei-me um bocadinho neste post acerca desta estampa italiana, impressa em 1698 ou 1700, representando D. João IV e que tem tempos fez parte de um livro sobre as guerras no Brasil com os holandeses. Comecei em Outeiro seco, uma aldeia transmontana, passei por Roma, dei um pulo ao Nordeste Brasileiro e acabei no Rio de Janeiro. Cronologicamente também andei de trás para a frente, mas os objectos tem esta capacidade de nos fazer viajar no tempo e no espaço..