quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Três estojos de jóias vazios

 
Na casa de um homem só, que gosta de se rodear de velharias e coisas recolhidas aqui e acolá, há sempre objectos surpreendentes e inusitados, como estes três pequenos estojos de jóias, dois deles cheios de nada e o terceiro de coisa nenhuma. Só puxando um pouco pela nossa imaginação é que podemos ver ali a surpresa de uma jovem a abrir uma das caixinhas e encontrar ali um anel de noivado com um diamante, um cordão de ouro ou um broche de prata, incrustado de pedrarias. 
 
Pertenceram à minha avó Mimi e julgo que terão contido jóias oferecidas por ocasião do seu casamento, no final da década de 20, provenientes de algum ourives do Porto ou de Guimarães, cidades que tradicionalmente abasteciam todo o Norte de Portugal de trabalhos de ouro e prata. Também não sei se não seriam coisas mais antigas ainda, que a Mimi terá guardado da sua mãe ou de uma qualquer velha tia, porque a minha avô era também uma mulher sentimental em relação aos objectos do passado e conservava-os com respeito. O que é certo, é que os anéis e os alfinetes de ouro foram retirados destas caixinhas há muito e actualmente devem estar nas mãos da minha irmã ou da minha tia paterna. Na partilha de bens, que houve a seguir à morte da minha avó calharam-me apenas os estojos vazios, que achei desde logo um pequeno encanto.

Ao contrário das jóias, que no passado foram consideradas pelas mulheres de todas as classes sociais como um investimento, um bem que elas poderiam vender em caso de aflição, estes estojos que agora pertencem a um homem e não tem qualquer valor comercial. Guardo neles pequenos nadas, como uma moeda romana ou um pin da Academia de Ex-Libris, de que a minha avó foi sócia.

Se os diamantes têm sido os melhores amigos das mulheres avisadas, os estojos de jóias vazios parecem entender-se muito melhor com homens solitários e sentimentais.

 
Talvez a surpreendente versão dos Diamonds are a Girl's Best Friend, interpretada por um homem, Jay Amstrong Johson, seja um remate curioso para este texto acerca de estojos, que uma jovem esvaziou de jóias há cerca de 80 anos atrás.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O requinte de um serviço de chá da Vista Alegre


Quem gosta de comprar porcelanas antigas nunca consegue deixar de se surpreender com a variedade de formas e decorações que a Vista Alegre usou ao longo do século XIX, em particular no período entre 1870-1880. Relativamente ao serviço de chá que hoje aqui apresento, nunca tinha visto estas formas de bule, açucareiro e a leiteira, com um certo toque de neo-barroco nas asas. Também desconhecia esta decoração feita com um filete dourado, que de tão simples acaba por ser muito requintada. De tal maneira requintada, que o meu amigo Manuel, quando lhe pôs os olhos em cima convenceu-se imediatamente que era porcelana de Paris. Só quando virou uma das peças e viu o VA em azul se persuadiu que o serviço afinal era portuguesíssimo.


Apesar de isolada em Ílhavo e longe de Paris ou Viena, a Fábrica da Vista Alegre foi tendo ao longo do século XIX uma produção muito interessante, com bom gosto e sobretudo muito variada.

Aliás, estou cada vez mais convencido que a Vista Alegre aceitava correntemente encomendas com decorações personalizadas. No Museu da fábrica existem dois pratos com um mostruário de armas e monogramas, correspondentes a este período, 1870-1880 e que foram reproduzidos na página 135 da obra de Ilda Arez Vista Alegre: porcelanas. Lisboa: INAPA, 1989.


Que os clientes podiam encomendar os monogramas com as suas iniciais e colocar os seus brasões nas loiças é pois um facto comprovado, mas seria interessar saber se no museu da fábrica existem para esta época pratos mostruário com as decorações possíveis de seleccionar ou se nos arquivos os livros de registos de encomendas fazem referência a pedidos de decorações personalizadas.


Encontrei no site Avaluart um serviço de chá com formas semelhantes a este, do mesmo período, 1870-1880, mas decorado com parras e uvas.
Foto http://www.avaluart.com/


O serviço foi comprado pelo meu amigo Manel e é com efeito um conjunto exemplificativo dos momentos de grande qualidade que a Vista Alegre conseguiu alcançar no período entre 170-1880.
 
 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Um porta-retratos antigo por preencher


Umas das coisas que vale a pena comprar nas feiras de velharias são as molduras antigas para encaixilhar os retratos de família. Vendem-se a belíssimos preços, emprestam uma dignidade nostálgica às fotografias do passado e dispostas em conjunto em cima de uma mesa ou de uma cómoda, proporcionam uma visão rápida daqueles que contribuíram com os seus genes para nossa formação como seres vivos.


Este porta-retratos requintado, que comprei na Feira de Estremoz a um preço irrecusável levantou-me o problema sobre que fotografia deveria colocar ali. Na minha casa, procuro ter imagens que representem os vários lados da família. Pensei colocar ali uma fotografia do meu avô paterno, o Silvino da Cunha (12.10.1901-14.03.1972), que conheci mal, mas do qual guardo algumas recordações simpáticas, do tempo em passei uma temporada em Chaves. Era muito miúdo, teria uns cinco anos, mas lembro-me que me ia buscar e levar ao jardim-escola João de Deus, passeava comigo pelas ruas de Chaves, onde cumprimentava senhores muito dignos de barba branca e de uma vez ter assistido com ele a uma procissão, onde desfilaram meninos vestidos de anjinhos, que frequentavam o mesmo jardim-escola que eu. Lembro-me também que me levava a passear ao Jardim da Madalena daquela cidade, onde cheirava sempre a buxo molhado e ainda hoje, quando entro num desses jardins fora-de-moda, simétricos e com sebes e aparadas e sinto o cheiro a buxo, emociono-me sempre.
Silvinho da Cunha (12.10.1901-14.03.1972),  fotografia tirada por ocasião da sua formatura em Medicina
Soube mais tarde que era um homem de rotinas, que cumpria os mesmos rituais todos os dias, atravessa a rua nos mesmos sítios e às mesmas horas tomava o seu café e entrava na Sociedade de Chaves para ler o seu jornal. O meu pai herdou essa sua característica e eu também preciso de rotinas para me sentir seguro, embora a vida moderna de Lisboa não facilite hábitos arreigados. 

Tenho também conhecimento de que era um homem culto, republicano e com mau feitio, mas objectivamente pouco sei sobre este meu avô e muito menos da sua família. O meu pai foi criado até aos seis anos com a família da sua mãe, os Montalvões, passava sempre longas férias no Solar desta família em Outeiro Seco e é dessa casa hoje em ruínas, que nos transmitiu maior parte das suas recordações. Do lado do meu avô paterno, os Cunhas nunca soubemos quase nada. Era todo um conjunto de antepassados que nem nos lembrávamos que alguma vez tivessem existido.
Os pais do Silvino da Cunha, Alfredo Augusto da Cunha e Emília Sousa Costa, meus bisavós
Recentemente visitámos o meu primo Jorge e encontramos na sua casa o retrato dos pais do Silvino da Cunha, o Alfredo Augusto da Cunha (1870-1956), contador judicial e sua mulher, Emília Sousa Costa, meus bisavôs paternos. É um daqueles retratos típicos dos finais do séc. XIX, inícios do séc. XX, em que o fotógrafo não pretendia propriamente surpreender o íntimo dos retratados. Naquele tempo, em que a fotografia era cara e reservada para ocasiões especiais, as pessoas quando se mandavam fotografar pretendiam sobretudo uma imagem digna de si, de respeitabilidade, de gente que não desce escadas a correr. É um bocadinho complicado através das fotografias desta época tentar adivinhar o que passava no interior desta gente. No entanto consegui identificar no Alfredo Augusto da Cunha as mesmas entradas no cabelo, que o meu pai, o meu irmão e eu tínhamos, antes de ficarmos irremediavelmente calvos.
Alberto Mario Sousa Costa (1879 -1961) era sobrinho da minha bisavó paterna. Foto Grande enciclopédia portuguesa brasileira
A minha bisavó paterna, a Emília Sousa Costa não parece ser bonita. No entanto provinha de uma família de Vila Pouca de Aguiar com tradições na cultura. Um dos seus irmãos, o António Sousa Costa era jornalista e o filho deste, Alberto Mario Sousa Costa (1879 -1961) foi um escritor extremamente popular na primeira metade do século XX, com uma lista invejável de obras de ensaio, romance, literatura de viagens e ainda de drama. Na Biblioteca Nacional contei 128 edições das suas obras.
Sousa Costa era um homem muito alto para a época, com um tipo muito trigueiro, tal como o meu avô Silvino e o meu próprio pai e sua irmã. Foto do Arquivo Nacional Torre do Tombo http://digitarq.arquivos.pt/

Casou com uma senhora que era também uma literata, Emília da Piedade Teixeira Lopes, que tornou conhecida como Emília Sousa Costa (1877-1959) e consagrou-se como escritora de livros infantis, cujas ilustrações foram assinadas por artistas plásticos conhecidos, como Sara Afonso ou Raquel Roque Gameiro. As suas entradas na Biblioteca Nacional ascendem a 120 títulos.
Emília Sousa Costa tinha um estilo literário, que hoje se considera enfático. Foto do Arquivo Nacional Torre do Tombo. http://digitarq.arquivos.pt/
Hoje em dia já ninguém lê as suas obras deste casal. O estilo de Emília Sousa Costa é pesado, típico da época. No entanto, a obra social deste casal a favor das crianças e da condição feminina é notável. Durante a república, Alberto Sousa Costa esteve na base da criação das Tutorias da Infância, organismo, que mais tarde veio dar origem aos actuais Tribunais de Família. Emília Sousa Costa preocupou-se de forma pioneira com a instrução feminina, que sabia ser a único meio pelo qual as mulheres pobres e desamparadas, podiam escapar ao inevitável destino da prostituição. Criou a Caixa de Auxílio a Estudantes pobres do Sexo Feminino, com um o seu curso anexo de instrução primária, que subsidiou milhares de raparigas em cursos preparatórios e superiores.
O poeta Cândido Guerreiro casou com uma prima direita do meu avô Silvino, Margarida Sousa Costa
A irmã de Alberto Mario Sousa Costa, a Margarida casou com o poeta Cândido Guerreiro em 1909. Foram apresentados pelo irmão pois Sousa Costa, António Sardinha e Aristides Sousa Mendes e Cândido Guerreiro faziam parte do mesmo grupo que se conhecia da Universidade de Coimbra. Durante o tempo em que viveram no Algarve, depois de 1936, os meus avôs, o Silvino e a Maria do Espírito deram-se bastante com o casal Cândido Guerreiro e Margarida Sousa Costa. Afinal de contas a Margarida era prima direita do Silvino. O poeta cândido Guerreiro era um homem de tendências republicanas e antes de casar com a Margarida Sousa Costa teve uma ligação com Maria Veleda (Maria Carolina Frederico Crispin) uma senhora muito à frente do seu tempo, uma republicana convicta, defensora dos direitos das mulheres e que apesar de ter tido um filho de Cândido Guerreiro optou por ser mãe solteira. Curiosamente entre 1912 e 1941 esteve ao serviço da Tutoria da Infância, a instituição criada pelo irmão da mulher que a substituiu no coração de Cândido Guerreiro, o que nos faz pensar, que talvez tenha sido por via do Alberto Mario Sousa Costa, que Maria Veleda conseguiu este lugar.


Em suma, a compra desta moldura tornou-se pretexto para explorar um lado da família cuja existência ignorava e o conhecimento do ambiente literário em que viveram os primos direitos do Silvino, bem como os respectivos conjugues, alguns deles comprometidos com a República serviu-me para entender melhor o meu avô, cuja cultura se poderá também se explicar por este meio familiar. Acredito até que a figura de Emília Sousa Costa poderá ter servido de modelo à minha avô Mimi (Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha,) colaboradora literária assídua de jornais e revistas de Bragança e Chaves, bem como do Comércio do Porto.
O porta-retratos encontrou um retrato e uma história para contar

Além das fontes familiares, encontrei informações para coligir este trabalho em:


- Grande enciclopédia portuguesa e brasileira. Lisboa ; Rio de Janeiro : Enciclopédia,195 .

- NOGUEIRA, C.. Emília de Sousa Costa: educação e literatura. Revista Lusófona de Educação, América do Norte, 23, jul. 2013. Disponível em: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/rleducacao/article/view/3359>. Acesso em: 11 Aug. 2016.

- http://www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=141452
 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Azulejaria portuguesa numa casa de banho


Nos últimos quarenta e cinco anos, nós os portugueses passámos como que uma esponja na nossa tradição azulejar de séculos e enchemos as nossas casas de banhos com azulejos hediondos, transformando aqueles espaços em divisões banais e tristes.


Comentador habitual deste blog, o meu amigo Manuel resolveu contrariar essa tendência e encomendar azulejos de fabrico artesanal, em verde e branco para o wc da sua casa alentejana. Os primeiros azulejos foram executados pela Cristina Pina e e destinaram-se à zona do duche e passados uns cinco anos, o Manel mandou fazer mais azulejos iguais, desta vez à Isabel Colher, que muita gente conhece através do seu blog, o Tardoz
Os problemas de salitre visíveis na casa de banho do Manel

Mas a colocação dos azulejos não foi apenas uma questão estética. Como a casa do Manel é antiga o reboco estava-se a esfarelar aos poucos, provavelmente porque areia usada para fazer a argamassa tinha sal a mais. Assim, os azulejos resolveram o problema do salitre, isolaram melhor a divisão e emprestaram uma graça especial a este espaço cheio de coisas curiosas, um bidé recuperado de um contentor do lixo perto da minha casa, toalheiros de faiança da Fábrica de Louça de Sacavém, um espelho em mármore dos anos vinte ou trinta, um lavatório antigo e muitas máscaras africanas que vieram nos caixotes de madeira dos retornados e acabaram desprezadas no chão das feiras de velharias.

Toda esta decoração foi rematada com um azulejo solto, que a Isabel Colher ofereceu ao Manel, decorado com a esfera armilar, réplica de um dos azulejos do Palácio Nacional de Sintra, colocado de forma insólita junto ao bidé, para dar uma nota histórica de humor. 
Azulejos do Palácio Nacional de Sintra. Foto Wikipédia
Se nós os portugueses temos uma tradição tão rica em azulejos, porque não reutiliza-la nos espaços onde nos movemos quotidianamente?
 
 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Uma pintura feminina: Santa Rita de Cássia


Nunca comprei pintura. Segui até esta altura da minha vida, em que estou prestes a fazer cinquenta e três anos, o conselho do meu pai de que quando não se tem meios para comprar boa pintura o melhor é decorar a casa com gravuras antigas. Com efeito, é raro ou impossível encontrar boas pinturas a um preço económico. Na sua qualidade de arte nobre, a pintura carece de mecenas ricos para se desenvolver e os preços praticados foram sempre altos. Digamos, que a boa pintura não está ao alcance de amadores de arte pobretanas.

Mas talvez por estar a trabalhar como bibliotecário num museu há cerca de seis anos ganhei algum olho clínico para identificar uma pintura antiga, mesmo quando ela se encontra no meio da habitual traquitana de uma banca de uma feira de velharias. Recentemente, na exposição sobre a Josefa de Óbidos realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, vi uma colecção de pinturas sobre cobre daquela artista, todas de dimensões muito pequenas, que me encantaram pelo seu virtuosismo técnico. Voltei à exposição várias vezes só para admirar aquelas pinturinhas em cobre e registei-as bem na memória.
Santa Madalena de Pazzi. Josefa de Óbidos, óleo sobre cobre. Museu Nacional de Arte Antiga. inv. 208 min. foto matrizpix

Há poucas semanas, na feira de Estremoz um vendedor colocou-me nas mãos esta imagem de Santa Rita de Cássia de pequenas dimensões e mesmo sem a retirar da moldura suspeitei logo que fosse uma pintura original, um óleo sobre cobre, provavelmente antigo, do século XVIII ou talvez mesmo do XVII. O preço estava muito convidativo e quando dei por mim já estava a caminho de casa com ela debaixo do braço. Quando cheguei a casa, o Manel retirou a pintura da moldura e confirmamos os dois tratar-se de um óleo sobre cobre. Mais tarde, mostrei esta Santa Rita de Cássia aos meus colegas do Museu, que me confirmaram que será uma pintura do século XVIII ou eventualmente do séc. XVII.

Cristo no mar da Galileia. Jan Brueghel, o velho. óleo sobre cobre. Museo Thyssen-Bornemisza
O cobre como suporte da pintura proporcionava ao artista uma superfície especialmente lisa, que permitia pintar pequenas cenas, plenas de detalhes e minúcias e em que as cores ganhavam tonalidades brilhantes. A partir de meados do século XVI e ao longo dos séculos XVII e XVIII, o cobre foi um suporte de eleição para executar paisagens, retratos e cenas religiosas de dimensões reduzidas. Essas pequenas pinturas eram concebidas para serem vistas muito de perto e eram ideais para espaços privados ou lugares de meditação e oração se o tema fosse sacro.
 
A pintura tem o seu je ne sais quoi de feminino e poderá ter sido um trabalho freirático, ou seja de uma mulher
Esta minha Santa Rita de Cássia será pois um trabalho destinado a uma cela de uma monja ou a um oratório particular de uma casa abastada. A pintura tem o seu je ne sais quoi de feminino, como diriam os franceses e poderá ter sido um trabalho freirático, ou seja de uma mulher. Nos conventos, as mulheres estavam libertas dos encargos próprios da condição feminina, como tratar dos filhos, do marido e do governo da casa e poderiam algumas delas dedicar-se a trabalhos artísticos e muitas delas fariam pequenas pinturas, que venderiam para o exterior como forma de arranjar proventos para o convento. No catálogo Rouge et or : trésors du Portugal baroque. - Lisboa : Gabinete das Relações Internacionais, 2001 o Professor Vítor Serrão refere várias monjas portugueses pintoras como a Irmã Joana Batista, do convento das Maltesa de S. João de Estremoz, Cecília do Espírito Santo, freira do convento das Chagas de Vila Viçosa, da nobre Maria Madalena de Castro, de Maria dos Anjos, professa no convento de Santa Maria de Sena, em Évora, de Teodora Maria Andino, activa em Faro e da nobre Dona Ana de Lorena, consideradas pelos documentos da época como artistas de uma certa capacidade e de uma grande sensibilidade.

 
Em todo o caso, certamente esta pequena pintura foi objecto de grande devoção. Santa Rita de Cássia era vencedora das causas impossíveis e a vida é e foi sempre de tal maneira atravessada por obstáculos impossíveis, que muitos recorreram certamente a ela. Em Portugal, Santa Rita foi também advogada dos terramotos e em muitos registos gravados é representada com um fundo em que se veem casas a desmoronar-se o mar revolto invadindo a terra firme.

Foto de http://www.csarmento.uminho.pt/
 
Em termos de iconografia Santa Rita é mostrada como monja agostiniana, segurando um Cristo e um espinho de Cristo cravado na testa. Segura uma palma, o que nos poderia levar a crer tratar-se de uma mulher que morreu martirizada, mas é de facto uma palma da glória, com três coroas, aludindo possivelmente à sua vida triplamente exemplar: donzela, esposa e monja.
 
 
Claro, esta Santa Rita não é uma obra-prima, nem tão pouco tem grande qualidade, mas é uma pintura original do século XVIII a qual não falta algum encanto. Além de tudo, Santa Rita era objecto de grande devoção na casa de Outeiro Seco da minha família paterna. Ter colocado esta imagem nas paredes de minha casa, foi de certa forma dar continuidade a uma tradição.
 
Santa Rita em minha casa
 
Algumas fontes:

-para informações sobre monjas pintoras consultei Rouge et or : trésors du Portugal baroque. - Lisboa : Gabinete das Relações Internacionais, 2001

- acerca de pinturas a óleo sobre cobre consultei um texto sobre Jan Brueghel, o velho, escrito por Beatriz Fernández, no site do Museo Thyssen-Bornemisza

 
- o site dos Bens Culturais do Patriarcado tem um texto muito bom sobre a vida e iconografia de Santa Rita

terça-feira, 19 de julho de 2016

Faiança Portuguesa: comparar sem concluír


Neste blog já se tem escrito muitas vezes sobre a dificuldade em identificar os centros de fabrico ou fábricas de muitas da faianças portuguesas do século XIX, pois raramente estão marcadas e muitas vezes e apresentam decorações muito semelhantes, já que procuravam corresponder a um gosto dominante do publico. Ainda recentemente comprei o livro A Fábrica de Louça e Vilar de Mouros / Paulo Torres Bento [et al]. Vilar de Mouros: Centro de Instrução e Recreio Vilarmourense: Câmara Municipal de Caminha, 2015 e fiquei baralhadíssimo. Aquela fábrica produziu peças que até há pouco tempo acreditava serem da região centro, outras que se costumam atribuir à Fervença e ainda muitíssimo cantão popular, que como toda a gente sabe, os chicos-espertos do mercado de velharias afirmam a pé juntos que é Miragaia. É um livro muito interessante, que recomendo a todos os amantes da faiança, mas que nos faz pensar ainda mais no perigo de fazer atribuições de fabrico com ligeireza. Por vezes penso, que talvez fosse mais interessante na faiança estudar os gostos dominantes no público ao longo do século XIX, do que concentrarmo-nos tanto na questão da atribuição do local de fabrico através dos motivos decorativos.

Estas linhas, que acabei de escrever, servem para justificar que a associação de peças que hoje apresento, não tem por objectivo classificar ou catalogar faianças. Pretendo apenas fazer uma associação de padrões que parecem mostrar um certo ar de família e que corresponderam a um gosto do público, que talvez diferentes fabricantes procuraram satisfazer.

O primeiro prato apresenta uma decoração algo familiar com o padrão das perdizes, que já foi mostrado pela Ivette Ferreira no seu blog, tempo e histórias . Em vez da perdiz, o prato representa um passarinho. A Maria Isabel mostrou também um prato encantador como este no seu blog e associou-o muito bem ao padrão das perdizes, mas atribuiu-o a fábricas do Norte, Vilar de ou Mouros ou Bandeira, a meu ver sem fundamento, mas cada um é livre de pensar o quer e o mundo seria uma coisa cansativa se estivéssemos sempre de acordo.

Julgo que a faiança decorada com o passarinho tem com uma cor de fundo demasiado creme para ser do Norte, pelo menos comparando com o que vi atribuído a Bandeira, cuja pasta tem sempre uma cor de fundo mais branquinha. Do que observei do livro A Fábrica de Louça e Vilar de Mouros, também não encontrei nada nem de perto nem de longe parecido com este pratinho.
 

A segunda peça é uma chávena de faiança linda comprada a um preço irrecusável, também de uma faiança tosca, decorada com uns motivos vegetais muito sóbrios, que o Manel interpretou como estilização da Salsa prestes a florir.


Talvez respondendo uma intuição qualquer resolvi juntar a chávena com o prato do passarinho e as duas peças parecem que foram feitas uma para a outra.


Este ar de família da decoração e da cor da pasta podem não indicar que foram produzidos pela mesma manufactura. Significará antes que a chávena e o prato foram manufacturados de acordo com um mesmo gosto. O mesmo se passa com o chamado padrão das perdizes. É talvez a única conclusão segura que posso tirar desta associação. Mas, também, o tempo quente que se faz agora sentir convida mais à contemplação destas faianças de ar campestre, do que a especulações sobre fabricantes.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Visitas de cortesia em Chaves num quarto de hora...



Tenho especial apreço por esta fotografia da minha mãe tirada em Lisboa, a 18 de Janeiro de 1946. A minha mãe, a última figura da direita usa aquele penteado todo puxado para cima e aqueles sapatos de sola compensada tão típicos dos anos 40. Tinha umas belas pernas. Aliás, manteve uma boa figura até muito tarde. Mas talvez o que goste mais desta fotografia é que captou o andar característico da minha mãe, que conseguia caminhar muito rapidamente, como que aos saltinhos, em cima de uns sapatos muito altos. Essa capacidade de correr em cima de sapatos saltos altos era aliás uma característica de muitas mulheres da sua geração.
Oura fotografia da minha mãe, tirada também Lisboa, em Março de 1946

Esta fotografia recorda-me sempre um episódio da minha mãe, que gravei de forma muito nítida na minha memória, não sei exactamente porquê, mas o cérebro humano regista umas informações e apaga outras sem nenhuma razão aparente. Um dia, regressávamos de Vinhais para Lisboa de camioneta e esta fazia sempre uma paragem de cerca de um quarto de hora em Chaves, na antiga estação, que era praticamente no centro da cidade. A minha mãe insistiu em sair e ir visitar a minha avó e a minha tia Natália. Os meus irmãos e eu que conhecíamos o seu carácter sociável, dissemos-lhe que não fosse, que não tinha tempo de fazer uma visita, quanto mais duas, sobretudo porque a minha mãe falava imenso e que um quarto de hora nem para os primeiros cumprimentos daria. A minha mãe para nos calar, ter-nos-á dito que éramos uns bichos-do-mato iguais ao nosso pai e lá saiu disparada fazer as referidas visitas de cortesia. O quarto de hora passou, os vinte minutos também e vinte e cinco minutos depois o motorista pôs o motor a trabalhar e quando fazia marcha atrás para sair da estação, apareceu a minha mãe a correr aos saltinhos em cima de uns sapatos muitos altos a mandar parar a camioneta. Eu e os meus irmãos, que estávamos a entrar na adolescência, naquela fase em que se tem vergonha dos pais, achamos aquilo ridículo, pois toda a gente se virou para nós, mas ao mesmo tempo não conseguimos deixar de admirar uma certa elegância naquela maneira de correr aos pulinhos em cima dos saltos altos, nem de nos divertir com o seu à vontade.

A célebre escritora de romances policiais, Agatha Christie escreveu na sua autobiografia, que só amámos realmente alguém quando gostamos dos seus momentos ridículos e esta fotografia da minha mãe, que registou para sempre sua forma de caminhar em saltos altos, recorda-me esse momento ocorrido há quase quarenta anos na estação de camionetas de Chaves, em que a amei profundamente.